O último congresso anual da Sociedade Iberoamericana de Neonatologia (SIBEN), realizado em setembro, na cidade peruana de Cusco, abordou os desafios da medicina neonatal na América Latina. Entre os principais temas discutidos estavam a deficiência de proteína e a nutrição precoce em bebês prematuros; as perspectivas da pesquisa médica fetal; as infecções pelo Vírus Sincicial Respiratório (VSR), em especial nos bebês prematuros e as cardiopatias congênitas. A seguir, um resumo do que foi apresentado sobre cada tema pelos especialistas presentes ao encontro.
1. Nutrição dos recém-nascidos
2. Função pulmonar nos recém-nascidos
3. O impacto das tecnologias médicas
1. Nutrição dos recém-nascidos
Um dos principais objetivos do congresso da SIBEN foi discutir o atendimento aos prematuros de muito baixo peso nos diferentes países da América Latina. A questão preocupa principalmente em função da tendência das mulheres contemporâneas de adiar a gravidez, tendo como prioridade a consolidação da vida profissional. A gestação na idade madura, depois dos 38 anos, é considerada de alto risco para o feto. As taxas de abortamento, defeitos congênitos e partos prematuros crescem a partir dessa faixa etária.
A médica Marta Rogido, especialista em medicina perinatal e neonatal da Universidade de New Jersey, que realiza pesquisas sobre neurodesenvolvimento, explicou aos médicos presentes no congresso que além de problemas de aprendizagem e déficit cognitivo, os recém-nascidos antes do tempo vêm ao mundo com baixo peso, o que os torna vulneráveis à síndrome metabólica (definida pela presença de no mínimo três dessas características: colesterol ruim elevado, bom colesterol baixo, obesidade e hipertensão), um problema que pode começar nessa etapa da vida e desencadear enfermidades no adulto.
A nutrição agressiva e precoce desses bebês ainda no hospital, onde ficam sob cuidados intensivos e recebem alimentação por via parenteral e enteral na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), ajuda a evitar o problema e outras complicações associadas ao desenvolvimento neurológico. A circunferência encefálica (medida do crânio) dos prematuros, é um indicador do desenvolvimento do bebê nesta fase, informou Rogido. E a medida dessa circunferência tem relação com a nutrição. Os bebês nascidos com menos de 34 semanas, encaminhados para os cuidados intensivos das UTIs, apresentam déficits proteicos importantes.
Ela citou um estudo de mais de 20 anos, que acompanhou o desenvolvimento neurológico de crianças nascidas antes do tempo, desde o parto até a idade adulta, com ajuda de exames de ressonância magnética, e constatou que o perímetro encefálico atingido, maior ou menor, ao fim do desenvolvimento estava relacionado com o consumo de proteína nos primeiros dez dias de vida.
2. Função pulmonar nos recém-nascidos
O pico da curva dos nascidos prematuramente, considerados “tardios”, varia de 34 a 36 semanas. Eles correspondem a 71,4%, dos nascimentos prematuros, mas não são objeto de investigação especial. Trata-se de uma “maioria esquecida”, segundo o pesquisador Andrew Colin, diretor da Divisão de Pneumologia Pediátrica e professor de pediatria da Escola de Medicina Miller e na Universidade de Miami, Flórida, Estados Unidos, que ao falar aos congressistas destacou um trabalho brasileiro, desenvolvido em Porto Alegre (RS) sobre a taxa de crescimento da função pulmonar entre esses bebês.
Ao nascer prematuro, o bebê não tem os pulmões preparados para respirar. A evolução pulmonar ocorre entre a 26ª e a 36ª semana de gestação (chamado de período sacular). O período alveolar, em que se formam os alvéolos, se dá entre a 36ª a 41ª semana. “Apesar de os alvéolos estarem presentes em alguns bebês na 32ª semana de idade gestacional, não se apresentam de forma uniforme até a 36ª semana”, disse o médico.
Os bebês prematuros apresentam alterações no desenvolvimento pulmonar que podem persistir na vida adulta e são mais atingidos por infecções como as provocadas pelo Vírus Sincicial Respiratório (VSR). A função bronquial pode ser afetada mais tarde nessas pessoas por fatores ambientais como a poluição ou o tabagismo e por infecções. “É provável que as infecções tenham um impacto acumulativo sobre a função respiratória reduzida, o que pode levar ao aumento do risco de enfermidades das vias respiratórias ao longo da vida”, disse Colin.
O trabalho brasileiro que considera importante foi desenvolvido em Porto Alegre (RS) por Luciana Friedrich e Marcus H. Jones, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, respectivamente. O estudo do grupo avaliou a função pulmonar em bebês nascidos entre 30 e 34 semanas e chegou à conclusão de que apresentam fluxo reduzido de ar, continuamente, até os 16 meses de idade.
A persistência desses fluxos reduzidos pode contribuir para o aumento do risco de enfermidades respiratórias recorrentes nesses bebês durante as primeiras etapas de vida. Os bebês prematuros – de 34 a 36 semanas – apresentam ainda 7 vezes mais chances de sofrer doenças neonatais do que os bebês nascidos a termo. Os bebês nascidos na 34ª semana apresentaram risco 20 vezes maior de morbidade em relação aos que nasceram na 40ª semana.
3. O impacto das tecnologias médicas
A medicina fetal de hoje utiliza rotineiramente tecnologia de ponta, como a tomografia de imagem em alta resolução, o monitoramento fisiológico, cuidados pré-natais intensivos, como lembrou o bioeticista norte-americano John Lantos, professor de pediatria na Universidade de Chicago e membro do Centro para a Prática Bioética.
O problema é que tais recursos avançados, que facilitam o planejamento do tipo de parto, sua duração e eventuais intervenções para garantir a sobrevivência dos bebês, também justificam a gestação tardia e é cada vez maior o número de mulheres que adiam a gravidez por conveniência profissional, entre outras razões. Com isso, observou Lantos, existe uma mudança etária em relação à gestação claramente em curso. A idade feminina de reprodução aumentou e, com ela, os recursos em reprodução assistida multiplicaram-se. “Há mais tratamentos para a infertilidade e maior número de gestação de múltiplos, hoje em dia e, a conseqüência é a gravidez passar a ser tratada de forma mais ´medicada”, disse o professor norte-americano.
Ele duvida que os sistemas de saúde estejam preparados para atender a essa demanda considerando os riscos de elevação da prematuridade, mortalidade e morbidade infantil.
O desenvolvimento da medicina fetal fez com que o feto passasse a ser visto (e tratado) como paciente, lembrou ainda, o que cria novos tipos de conflitos materno-fetais. O futuro dos diagnósticos pré-natal deve lançar, ainda, novas controvérsias, imagina o especialista. Conflitos envolvendo opções como tratar o feto cirurgicamente ou com terapias medicamentosas. Ele acredita que a tendência futura é haver um aumento do número de abortos consentidos por conta de anomalias congênitas dos fetos, bem como o aumento da demanda por tratamentos intrauterinos. “Em um futuro próximo talvez tenhamos mais um problema de saúde pública”, ele cogita, ao levar em conta as variáveis em questão na gravidez tardia.