País é referência em transplantes
No Brasil, 96% dos transplantes são realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O país tem o maior programa público de transplantes do mundo, em que o paciente recebe apoio pré-operatório, assistência hospitalar e pós-operatória. O SUS também disponibiliza os medicamentos.
Nesta entrevista com o Prof. Dr. Luiz Augusto Carneiro de Albuquerque, diretor e professor titular do Serviço de Transplante e Cirurgia do Fígado do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), ele mostra quais são as principais indicações para o transplante de fígado e fala sobre o atendimento aos pacientes.
Para quem o transplante de fígado é indicado?
Prof. Dr. Luiz Augusto Carneiro de Albuquerque - Todos os doentes com doenças crônicas e congênitas do fígado precisam de transplante. Os casos mais freqüentes são as cirroses. A cirrose tem várias outras causas além do alcoolismo. Ela acontece por conta de esteatose, que é um acúmulo de gordura no fígado por infecção decorrente de hepatites B e C. Outra causa comum é a hemocromatose, o depósito irregular de ferro nos tecidos. Há uma série de doenças que levam as pessoas a ter cirrose.
Quais os critérios que indicam a necessidade de transplante?
Dr. Carneiro - Há critérios baseados em dados clínicos para dizer se o doente precisa ou não de transplante. O índice Meld (Model for End-Stage Liver Disease) mede a gravidade das doenças hepáticas terminais e define a quem o transplante é indicado ou não. A indicação para o transplante ocorre quando não há mais medidas terapêuticas eficazes. O fígado é um órgão que tem uma grande reserva funcional. Quando você tem sintomas do fígado, cerca de 70% do órgão já foi destruído. Então, são pacientes que aparentemente podem estar bem, mas têm uma pequena reserva funcional. E isso faz com que problemas simples como uma infecção de pele cause uma descompensação.
Há diferença para crianças e para adultos?
Dr. Carneiro - A lei estabelece prioridade para que as crianças não fiquem em fila de espera. Isso já foi conseguido. O Meld é multiplicado por 3 para a criança. Para adultos, o Meld 15 é o mínimo e 40 o máximo. Quando é criança, o mínimo já entra como 45, acima do limite da nota máxima do adulto.
Crianças podem receber doações de adultos?
Dr. Carneiro - A criança pode receber uma parte do fígado adulto. Nós seccionamos e oferecemos uma parte para um adulto e outra para a criança, é a técnica de split liver, ou fígado dividido.
Quais as maneiras de lidar com a escassez de órgãos?
Dr. Carneiro - A Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo tem feito um trabalho muito bom e importante, treinando pessoas que procuram órgãos. Isso fez com que, na cidade de São Paulo, em 2009 [até julho] tivéssemos 27 doadores por milhão, sendo que há cinco anos tínhamos apenas 4 por milhão. É um trabalho memorável que nos coloca em pé de igualdade com EUA e alguns países da Europa. Na Espanha o padrão é 36.
No HC, temos 600 pacientes aguardando transplante. Este ano esperamos realizar 150 transplantes. Se não utilizarmos manobras para aumentar a oferta de órgãos, esses doentes vão morrer esperando o fígado. Então, temos usado alternativas. Além do fígado dividido, que serve a dois receptores, temos o “fígado dominó”, em que pegamos um doador que tenha uma doença metabólica ou neurológica e esse fígado é usado em outro paciente. Por exemplo, um órgão com paramiloidose, cujos sintomas levam 20 a 30 anos para aparecer, é usado num doente na faixa dos 50 anos de idade que tem câncer. Antigamente nós jogávamos fora esse órgão. Hoje nós tiramos de um e passamos para outro, é um efeito dominó.
Como o paciente pode colaborar para sair logo da fila e realizar o transplante? Qual é o tempo mínimo e máximo na fila?
Dr. Carneiro - Depende da gravidade. Se não tiver critério especial, a chance de ele transplantar no estado de São Paulo - que recebe doentes do país inteiro - é praticamente zero. Há transplante de órgão de doador cadáver e transplante intervivos. A fila é para transplante em cadáver. O paciente só vai receber transplante se tiver um Meld alto. A nossa média no HC é de transplantados com Meld 30. Se tiver uma nota menor que 29 o doente pode demorar muito na lista. Contudo, em São Paulo as doações melhoraram muito. Esse mês (julho de 2009), realizamos um transplante para um Meld 24, que foi uma surpresa muita boa. Temos lutado para aumentar o leque de transplantes para que essas notas abaixem. E o Estado tem feito a sua parte também. Aumentou em 50% a oferta de doadores esse ano. É um dado bastante auspicioso.
Qual a razão desse aumento?
Dr. Carneiro - A secretaria treinou pessoas, médicos, enfermeiros e paramédicos para reconhecer pacientes com morte cerebral e cuidar deles. E nos grandes hospitais de São Paulo hoje há um médico trabalhando para reconhecer doadores.
Toda essa população é atendida pelo SUS?
Dr. Carneiro - Todos pelo SUS. No Brasil, 96% dos transplantes são cobertos pelo SUS. O Brasil tem o maior programa público de transplantes do mundo. E o doente recebe todo o apoio pré-operatório, toda parte hospitalar e todo o pós-operatório, bem como todos os medicamentos ofertados pelo SUS.
Quanto tempo em média leva para um paciente passar pela avaliação eletiva para o transplante?
Dr. Carneiro - Posso falar especificamente do Hospital das Clínicas de São Paulo. Normalmente, a fila era muito grande e demorava muito tempo para o doente ser avaliado. Hoje temos uma abordagem em que o doente é avaliado em quatro ou cinco dias. Eu tive uma reunião com a superintendência do HC para aumentarmos a oferta de endoscopistas, ultrassonografistas, exames de sangue e cardiologistas. Porque esse não é um doente comum que pode sair e voltar, marca para fazer exame. Ele tem que chegar, receber um atendimento global e estar preparado em poucos dias para ser avaliado. Nós queremos fazer o diagnóstico para o transplante em 24 horas. E se o paciente tiver indicação para transplantar, estará todinho preparado em uma semana.
Mas aí ele entra na fila?
Dr. Carneiro - Sim. Entra na fila e passa a fazer os exames de rotina conosco.
Os pacientes mais graves têm ficado quanto tempo na fila?
Dr. Carneiro - Acabo de receber um paciente de outro hospital com um Meld 40. Provavelmente a cirurgia ocorrerá em um ou dois dias.
A partir de que Meld o paciente é considerado gravíssimo para obter a possibilidade do transplante com maior urgência?
Dr. Carneiro - A recomendação internacional é que o transplante seja indicado a partir de um Meld acima de 36. São doentes tão graves que são considerados muito doentes para tratar, em função do preço e dos custos.
Nós, latinos, temos outra visão. Temos um compromisso com esses doentes e realizamos transplantes com Meld 30.
SERVIÇO
Ambulatório de Transplante e Cirurgia do Fígado do Hospital das Clínicas
Local
Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 155, Prédio dos Ambulatórios, 4º andar, Bloco 11.
Tel.
11 3069-7940
Agendamento de Consultas
Segunda à sexta-feira das 8 às 17 horas.
Atendimento
Segunda à sexta-feira das 7 às 19 horas.
Inscrição na fila de espera de transplante
Os pacientes só são inscritos na fila de espera se recebem indicação de transplante decorrente de avaliação clínica realizada no HC.
Para se tornar doador de órgãos
O principal é conversar com a sua família e deixar bem claro o seu desejo. Não é necessário deixar nada por escrito. Porém, os familiares devem se comprometer a autorizar a doação por escrito após a morte. A doação é um ato pelo qual você manifesta a vontade de que, a partir do momento da constatação da morte encefálica, uma ou mais partes do seu corpo (órgãos ou tecidos), em condições de serem aproveitadas para transplante, possam ajudar outras pessoas.
A doação de fígado por pessoas vivas só é aceita quando o doador é da mesma família do paciente receptor e depende também de avaliação de compatibilidade.
Fonte: Ambulatório de Transplante e Cirurgua do Fígado do Hospital das Clínicas e site do Ministério da Saúde